Vila Chã Da Braciosa

Nos rituais festivos do ciclo do Inverno transmontano a convivência dos elementos do sagrado pagão e do cristão, é notória, os mascarados assumem funções marcadas por duas facetas nitidamente antagónicas que, por vezes, se tocam, se misturam e se confundem: o sagrado e o profano, o cristão e o pagão, a ordem e o caos.

Em Vila Chã (da Braciosa), a festa da Velha faz parte dos ritos de passagem e iniciação celebrados no período solsticial de Inverno. O trio de rapazes que encarnam o papel de  Velha, Bailador e Bailadeira chamam para si todas as atenções deste período.

No primeiro dia do Ano, logo ao nascer do dia, a alvorada é dada pelo grupo de músicos  (uma gaita de foles, uma caixa e um bombo) que percorrem as ruas, anunciando a saída das personagens burlescas que irão tornar este dia tão especial. A convite de um mordomo da festa, é servido na casa deste o pequeno almoço a que se seguirá a paramentação dos mascarados.
A Velha, de cara e mãos tisnadas  com uma cruz de cortiça queimada, veste uma saia comprida de burel, enfeitada de rendas e bordado brancos, calça sapatos de bezerro e usa um casaco do mesmo tecido da saia que tem preso um papel manuscrito com um pequeno poema em mirandês:

Dai a smola a la pobre bielha,
Já num puode trabalhar;
Tem miles d´anhos,
Dai a smola a la pobre bielha
Que ye mala de cuntentar.
Dai-he buns chouriços
I chouriças para assar.
Dai-he tamien buona pinga,
Para eilla se ambebedar
Aquel que num a dar,
De sou palo nõ se bai scapar.
La bielha agradecida
Rezará ua ouraçon,
Se por bós num fur corrida
La pontapé, como un perro.

Na cabeça usa um chapéu enfeitado com uma fita de seda colorida e quatro palmitos ou flores. Traz um rosário de carrinhos de linhas vazios e bugalhos  de carvalho pendurado ao pescoço, este tem na extremidade a cruz de cortiça queimada com que se mascarrou e que servirá para castigar todos os que se recusaram a dar esmola para o Menino, assim como para marcar as moças solteiras. Numa mão traz uma estaca em V, onde coloca as peças de fumeiro que lhe vão dando ou que furta e na outra mão um cajado ("caiato" em mirandês) de onde pendem algumas bexigas de porco insufladas, com que amedronta e coloca em debanda as crianças. Ao ombro  um grande sacola de pano e uma "bota de vinho", da qual vai bebendo grandes goles e á cintura uma pequena bolsa de pano colorida. Nas mãos um par de castanholas com que vai acompanhando o ritmo do Gaiteiro.

A Velha é acompanhada por um par de bailadores, ambos rapazes, a Bailadeira representa uma mulher vestida com uma blusa bordada e saia comprida, na cabeça um lenço colorido que lhe cai pelos ombros e um chapéu de feltro preto com uma fita encarnada e flores. Coloca por baixo da blusa uns volumosos peitos artificiais  e traz à cintura uma pequena bolsa. Nas mãos umas conchas que irá fazer tocar enquanto baila. O Bailador apresenta-se com traje semelhante ao dos pauliteiros, saia branca  decorada com lenços coloridos e dobrados, camisa branca e casaco sobre o qual traz um lenço colorido à laia de xaile. À semelhança das outras duas figuras tem um chapéu de feltro enfeitado com uma fita vermelha e flores, e, nas mãos castanholas para tocar enquanto baila.

É aos mordomos  que cabe organizar a ronda do peditório pela aldeia, o cortejo é encabeçado pelos três mascarados, seguido dos músicos e  do grupo de acompanhantes , gentes da aldeia e alguns forasteiros curiosos. Percorrem a aldeia de casa em casa e recolhem as esmolas, essas esmolas são o pretexto para atuação dos Bailadores e da Velha, que bailam o "lhaço" ao som da música tradicional da " bicha" e do "baile sacramental",  a duração do baile está de acordo com o tamanho da esmola, em sinal de agradecimento. Sempre que numa casa o luto está presente,  a música não existe e o trio de figurantes reza um pai-nosso ditado pela Velha. A Velha é a figura central e com os seus gritos e correias atrás das crianças e raparigas que tenta assustar com as bexigas ou tisnar com a cruz, ou ainda, os castigos que aplica, tornam-se motivo de divertimento e grande algazarra. O cortejo é muitas vezes convidado a entrar nas casa onde a mesa está posta com as iguarias da época, noutros tempos a Velha entrava sorrateiramente e furtava as melhores chouriças dos fumeiros.

Terminada a ronda do peditório pelo meio dia, é hora do almoço, de novo em casa de um dos mordomos, seguir-se-á a missa na qual não entra a Velha e este ano também não entrou o Bailador, embora seja costume que este assista à missa no meio dos homens. A Bailadeira troca o chapéu vistoso por um lenço de lã e um xaile negro e acompanhada da mordoma toma o seu lugar no fundo da igreja no meio das mulheres. Após a missa é realizada uma pequena procissão em redor da igreja com o andor do Menino Jesus a ser carregado pelos mordomos, a Bailadeira segue na procissão com as mulheres.

Terminados os atos religiosos é hora do reaparecimento da Velha e do Bailador  e no adro da igreja são tocadas e bailadas algumas músicas tradicionais a pedido do povo. O peditório vai prosseguindo pela tarde fora, agora já nas imediações do local onde a Velha irá acender uma grande fogueira  ao pôr do sol, que irá marcar a entrada no Novo Ano, num ritual do fogo próprio do Solstício , culto propiciatório ao Sol para que no Novo Ano aqueça mais a terra e a  fertilidade abunde.

A lenha para a fogueira é oferecida pelos mordomos e a celebrações começam no domingo anterior com a ida à lenha pelos homens da aldeia, dia de muita animação, pois nesta tarefa a música, os petiscos assim como o vinho estão presentes em abundância, tornando este dia muito desejado e participado. Ao final do dia, os carros de bois, agora substituídos por tratores, carregados de lenha com os mordomos sentados em cima dela e a música a tocar, regressam à aldeia  dando a volta a esta antes de depositar a lenha no local onde vai ser ateada a fogueira da Velha. O jantar convívio que se segue é o ponto alto do dia.

Embora de realização relativamente recente, tornou-se já hábito o batismo dos mordomos que junto da pilha de lenha, de joelhos,  são batizados com ovos crus e farinha que lhes é esfregada na cabeça.