O Chocalheiro De Vale De Porco

Vale de Porco é uma aldeia situada a cerca de 5 Km de Mogadouro, no planalto mirandês, onde existe um velho costume de um homem mascarado com uma careta de pau sair à rua a pedir a esmola para o Menino Jesus. O mascarado de Vale de Porco é denominado de Chocalheiro e em outros tempos de Velho/Belho ou Diabo. Na noite de 24 de Dezembro, os chocalhos rompem o silêncio da noite, o Velho chocalheiro percorre as ruas de Vale de Porco pedindo cepo (madeira) para fazer a fogueira de Natal na praça central da aldeia. À meia-noite, a população concentra-se junto ao fogo de Natal.

No dia de Natal , o mordomo do Menino Jesus, sai até à hora da missa a pedir a esmola pela aldeia acompanhado pelo chocalheiro, que entre correrias, saltos, tropelias e desacatos vai transformar o dia numa verdadeira folia, até ao anoitecer. Este ritual repete-se no dia de Ano Novo seguindo-se o leilão dos géneros recolhidos. E antigamente, também no Dia de Reis, a 6 de Janeiro. O Chocalheiro tem como indumentária um fato inteiro (tipo fato macaco) - a Farda, de tecido grosseiro, usualmente serapilheira, meio roto e largalhão. Este fato tem um capuz com que o mascarado tapa totalmente a cabeça, confinando com a máscara de pau. À cintura enverga um cinto de chocalhos de vários tamanhos que fazem uma enorme algazarra durante as correias e saltos e o qual dá o nome ao mascarado.

Na mão empunha um pau ou moca com que vai distribuir pancada nos rapazes e raparigas da aldeia. A máscara feita de choupo, representa uma caratonha muito feia, pintada de vermelho e preto com dois grandes chifres e uma serpente. A serpente em relevo parte da comissura labial esquerda, estende-se pela face esquerda e aninha-se no meio dos chifres como quem espreita. A máscara é muito pesada tornando difícil o dia do chocalheiro, sendo normal os rapazes se revezarem na envergadura da Máscara e da Farda.

O ritual é reservado aos homens. As mulheres, quando se juntam aos velhos chocalheiros podem ser mal interpretadas, e podem ser pintadas com carvão como ato para as banir do grupo.

Enquanto se realiza a volta pela aldeia ao som ensurdecedor dos chocalhos pendurados no cinto de couro, o Chocalheiro vai premiando quem se aproxima com umas mocadas o que origina grande algazarra e correrias loucas. Contam-se várias histórias que animadas pelo espirito supersticioso do povo, envolvem a figura do chocalheiro em mistério e associam-no ao Diabo o que lhe confere prerrogativas especiais para poder bater em quem quiser sem direito a resposta. Assim aproveitando a sua imunidade vai concretizando algumas vingançazinhas em forma de pancada.

O chocalheiro de Vale de Porco tem origens remotas, é um ritual pagão com fins religiosos que se mantém vivo e apresenta muitas semelhanças quer na indumentária que na representação com o Careto e outros mascarados de Trás os Montes, Galiza e Astúrias.