Festas de Constantim

Em toda esta região do planalto mirandês, ainda hoje, persistem manifestações a que se dá o nome de Festas de Inverno. Quase todas estas manifestações etnográfico-culturais são de origem pagã, de caráter crítico, sarcástico e irónico, estando associadas a cultos da terra, propiciadores de fecundidade e fertilidade, da era romana. Entre os romanos celebrava-se a festa dos jovens - "juvenais" em 20 e 21 de Dezembro, Solstício de Inverno, com a celebração em grandes banquetes e a generalização de desordens. Estas festas foram antecedidas pelas "saturnais" e estão ligadas aos bacanais liberais. Na idade média eram conhecidas como as festas dos loucos. As festas do Solsticio de Inverno foram cristianizadas e atualmente no dias 27 e 28 de Dezembro, em Constantim, estas festas são celebradas sob o auspicio de um santo jovem - São João Evangelista - santo predileto dos jovens solteiros. Celebram ritos da passagem dos jovens para a idade adultas com convívios gastronómicos e a inversão da ordem instalada da vida quotidiana.

As celebrações começam dias antes com a apanha da lenha graúda - cepos - que alimentará a grande fogueira a atear na noite em que começa a festa, no largo da aldeia, e, da lenha miúda que servirá para cozer os tremoços e as castanhas que os mordomos ofertarão à população como engodo para obter o pecúlio para a festa. A apanha da lenha é também denominada "dia das luzes".

Habitualmente, na véspera da festa - dia dos cepos - à volta da fogueira as gentes da aldeia, deliciam-se com o "convite" (tremoços e castanhas), conversando, assistindo às danças dos pauliteiros e até entrando na dança. Este ano, 2013, a meteorologia não colaborou e em vez do ajuntamento ser feito à volta da fogueira, este fez-se no pavilhão da aldeia. Os pauliteiros nesta sua atuação ainda não envergavam o traje tradicional. O "carocho" do qual se mantém secreta a identidade faz nessa altura a sua primeira aparição trajado a rigor e com as tropelias e desacatos que faz revoluciona tudo à sua volta. A noite é passada em animado convívio bem acompanhado de abundância de comida e bebida.

No dia da festa, dia 28 de Dezembro, dia de S. João Evangelista, a alvorada acontece é dada pelos gaiteiros a acordar a aldeia, a relembrar que a festa vai continuar e que a ronda se está a iniciar. Nesta ronda os mordomos da festa distribuem o "convite" de casa em casa e vão recolhendo a esmola, sempre acompanhados pelas figuras centrais da festa: o "Carocho, a Tiê Biêlha" e o grupo de gaiteiros e músicos. Recolhem chouriças, salpicões, dinheiro e cereal. Com esta esmola pagam a festa. As peças de fumeiro, pés, orelhas e costelas de porco, são para o repasto da ceia comunitária.

A dança dos Pauliteiros é uma dança tradicional, comunitária ao som das gaitas de foles e dos bombos. São oito dançadores, que envergam um trajo para-militar, considerado como sucessor do trajo militar greco-romano, substituindo as túnicas pelas saias, o escudo pelo lenço colorido sobre os ombros. Usam ainda os chapéus enfeitados e a flauta pastoril. O Carocho enverga um fato de pano grosseiro cinzento, composto de calça e casaco cheios de remendos coloridos, apresenta a cabeça coberta com lenço preto por debaixo de um chapéu velho, pintalgado e com uma flor, a face tapada com uma máscara de couro, também pintada. Ao pescoço e a tiracolo tem vários colares de carretas de linhas, já vazias, que dão várias voltas ao tronco. Nas mãos leva uma grande tenaz de madeira com que irá recolher as peças de fumeiro: chouriças, salpicões, costelas, orelhas e pés de porco. Do queixo da máscara pende uma barbicha de bode avermelhada. Calça galochas pretas muito grandes. A Velha ou “Tiê Biêlha” veste saia e colete castanhos de burel, blusa de chita branca, lenço tradicional na cabeça, xaile pelas costas, vários rosários de castanhas assadas ao pescoço e uma sacola á cintura. Na mão direita traz uma estaca em forma e forquilha com que recolhe a esmola de chouriça e outras peças de fumeiro que lhe vão dando pelas casas.

Quando obtida a esmola os pauliteiros dançam "o laço" (dança) pedido pelos donos da casa acompanhados pelos gaiteiros e tamborileiros (um bombo e uma caixa). Os foguetes vão estalando no ar e são sinónimo de agradecimento pela esmola, servindo também para que a restante população conheça a localização da ronda. Se algum dos donos da casa for pauliteiro e já o tiver sido, pode se o quiser, substituir um dos elementos do grupo e participar na dança. À Biêlha e ao Carocho tudo é permitido, o Carocho entra à sucapa nas casas, rouba fumeiro, desorganiza e desarruma tudo, mete-se com as jovens que vai encontrando, simulando o seu rapto carregando-as às costas, simula atos sexuais com a Biêlha e vai fazendo todas as tropelias que põem em causa a ordem pública, sempre com grande carga de sensualidade. A Biêlha vai tentando acalmar os ânimos do endiabrado "Carocho". Sempre que em alguma das casas morreu alguém no último ano, a dança e as tropelias dão lugar a um " Padre Nosso" em memória do falecido.

A ronda termina com a missa de São João, na igreja da aldeia, durante a missa os pauliteiros dançam o " Senor Mio", acompanhados pela flauta ou tamborileiro. Houve anos em que durante a elevação da hóstia, que precede a comunhão, se tocava a gaita de foles, este ano isso não aconteceu por divergências de opinião entre o padre e o gaiteiro. Das figuras mascaradas, apenas a Biêlha assiste à missa, junto dos homens que tomam a ala esquerda da igreja, enquanto as mulheres ficam na nave central. O Carocho que simboliza o diabo, não pode entrar em solo sagrado e portanto desaparece. Terminada a missa, é realizada a procissão em redor da igreja, o andor de São João Evangelista é carregado pelos pauliteiros, com os gaiteiros a tocarem a marcha processional. A "Biêlha" é a acompanhante do padre durante a procissão.

Após o final da procissão a festa continua no adro da igreja com as danças dos pauliteiros acompanhados pelos músicos, os paroquianos e alguns curiosos assistem encantados. A Biêlha vai conversando e distribuindo as castanhas assadas do seu rosário, principalmente aos mais velhos. De rompante, surge o "Carocho" que dançando à volta dos pauliteiros vai perturbando a harmonia reinante. As cenas sensuais com a Biêlha acontecem já no espaço do sagrado. À noite a festa continua com a ceia comunitária e o baile em que participam todas as pessoas da povoação e as pessoas convidadas pelos mordomos da festa.