O Chocalheiro da Bemposta

O ritual do chocalheiro da Bemposta realizado nas festas de Santo Estevão - 26 de dezembro- e no Ano Novo - 1 de janeiro- é feito por promessa, as pessoas que tem algum problema fazem promessa à Virgem das Neves e ao Menino Jesus, de se fazerem de Chocalheiro nesse ano.

Na véspera da saída do chocalheiro, por volta da meia -noite e junto de uma fogueira na casa do mordomo são feitas as "mandas", ou seja o leilão do papel de chocalheiro desse ano, envolto num misto de ansiedade e secretismo. Os presentes vão mandando em seu nome ou de outrem, sem que isso seja público, aquele que "mandar" mais alto à meia noite, ficará com o privilégio de ser o Chocalheiro. Pelo secretismo da identidade inerente à personagem é vulgar que aquele que oferece no leilão não seja o beneficiário, mas esteja participando por outro. Este ano o chocalheiro foi um homem, mas, anos houve em que esse papel foi desempenhado por uma mulher. Como é na casa do mordomo da festa que está guardada a Máscara (Carocha) e o fato (mangão) e para que a identidade se mantenha envolta em mistério, o vencedor das mandas, pernoitará aí, para que ao nascer do dia após se paramentar, inicie a panha da esmola sem ser visto nem identificado .

Pelas 8h da manhã do dia de Santo Estevão, dia 26 de dezembro, o chocalheiro sai de casa do mordomo acompanhado por outro homem, o guia, que o orientará nas correrias loucas pela aldeia, uma vez que a máscara é muito pesada e retira-lhe a visibilidade. Outra das funções do guia é ajudar no transporte das esmolas recolhidas. A " apanha" da esmola (dinheiro, chouriças, peças de porco fumadas, fruta etc.) começa numa extremidade da aldeia e percorre todas as ruas, parando nas casas habitadas.

Como o chocalheiro está impedido de falar, apenas cumprimenta os donos das casas com uma vénia, deixando os dois dedos de conversa e os cumprimentos para o mordomo e a família deste que acompanham o Chocalheiro na sua demanda. Simbolizando uma figura demoníaca, está proibido de entrar em solo sagrado, como tal evita o adro da igreja e o cruzeiro que existe no centro da aldeia.

O cortejo vai engrossando com os habitantes da aldeia e alguns curiosos e concentram-se em grupos nos largos e cruzamentos. O tema nessa manhã é a identidade do chocalheiro que promove a atividade da adivinhação baseados em pequenos pormenores, como o andar ou algum gesto característico do tomador da personagem, embora esses pequenos gestos delatores sejam o mais possível disfarçados com outros pouco usuais. Esta " apanha" irá terminar perto da hora de almoço na aldeia do Lamoso, uma aldeia próxima, onde o Chocalheiro ao retirar a "carocha irá revelar a sua identidade para gáudio da população.

Segue-se o almoço em casa do mordomo com a presença de alguns convidados, a família alargada do mordomo ,os colaboradores do peditório e o chocalheiro. Por vezes após o almoço algum jovem mais afouto pede para envergar a carocha e o mangão e sair pelas ruas continuando o peditório desta vez em proveito próprio.

A personagem do chocalheiro serve duas personagens divinas: Santo Estevão, o chocalheiro simpático e menos exuberante e o Menino Jesus, o chocalheiro mais atrevido, bravo e com cariz mais diabólico. Tanto a festa a Santo Estevão pelo Solstício de Inverno, como a Festa ao Menino no Ano Novo estão carregadas de simbolismo dos rituais agrários e mitológicos pagãos, simbolizando a fecundidade, a fertilidade e a mortalidade.

O chocalheiro veste um fato de "macaco" denominado "mangão " de tecido grosseiro, normalmente estopa tingida de preto ou cinzento escuro, com listas brancas e vermelhas pintadas, nas costas uma caveira com dois ossos cruzados, simbolizando a morte. Uma serpente feita de pano, enrola-se nele cruzando-lhe o peito, leva a tiracolo 2duas campainhas e dois chocalhos com que se faz anunciar e numa mão leva uma tenaz com que castiga aqueles que lhe perturbam a "apanha" e as correrias e na outra uma bexiga de porco insuflada.

A máscara ou "carocha" concentra um conjunto de elementos de cariz demoníaco e simbólico, trata-se de uma máscara taurofórmica de madeira pintada de preto e vermelho na qual está esculpida uma serpente que sai de uma maçã ou laranja e se estende pela face esquerda , na face direita esculpida um pequeno fruto (maçã ou laranja) e uma salamandra passeando numa das faces. Nas pontas dos chifres ostenta duas laranjas e as zonas pilosas como as sobrancelhas e a barbicha de bode são exuberantes e de pelos avermelhados, da nuca tem pendurada outra bexiga cheia de ar. Nas civilizações antigas como as do Antigo Oriente e a Cretense, as figuras taurofórmicas representavam entre outras divindades, o Sol, força criadora e fértil, a serpente a fecundidade, a fertilidade e a imortalidade, as bexigas insufladas estão relacionadas com o ritual de esconder a urina e as fezes para que não caíssem nas mãos de bruxas e feiticeiros, os frutos eram elementos propiciadores de abundância par o novo ciclo anual.

Esta representação cénica é repetida em todas as suas etapas no dia de Ano Novo.