Entrevista a Kepa Junkera, Músico

Q: Como tem sido o percurso de Kepa Junkera até chegar ao reconhecimento internacional como um dos grandes músicos da atualidade?

R: Em 2015, celebro 35 anos de música e tem sido uma aventura muito especial e bonita.

Começou no bairro de Rekalde em Bilbao. O meu avô materno tocava a pandeireta e a minha mãe também tocava e dançava, assim, tive a grande sorte de escutar os primeiros sons da trikitixa [acordeão diatónico] que me entusiasmaram. Em seguida, quis aprender a tocá-la. Fi-lo de forma autodidata porque na altura não havia escolas de trikitixa em Bilbao. Com o tempo dei-me conta que essa aprendizagem autodidata me marcou muito, penso que me ajudou a procurar sons e formas de tocar mais pessoais.

Nos primeiros anos, tocava em festas populares, pasacalles, etc....o percurso habitual da trikitixa bem perto da rua, das pessoas, das feiras. Comecei também a interessar-me por outros instrumentos como a alboka, a pandeireta, o txistu, a txalaparta… A dada altura o grupo Oskorri chama-me a colaborar e descubro outro mundo paralelo ao que conhecia, o mundo dos concertos e das gravações. Começam a chamar-me de outros países para tocar e também vejo que há outras formas de fazer música e de tocar.

Nos anos 80 começo a compor meus primeiros temas e é algo que tenho continuado a fazer até agora. A minha filosofia tem sido procurar contrastes nos meus trabalhos, tentar encontrar novos caminhos, colaborar com diferentes músicos e aprender constantemente a partir desses encontros.

Um desses encontros foi com Júlio Pereira, um encontro e um trabalho que lembro com muito carinho. Encantou-me o encontro entre a forma de tocar do Júlio, que representa o vosso espírito [português], e a trikitixa... Foi um disco em onde aprendi muitíssimo. O Júlio Pereira é um músico excepcional. Em Portugal também colaborei com a Dulce Pontes, uma pessoa que estimo muito e com a qual desfrutei uma infinidade de lugares. E há tantos outros músicos de Portugal, terra que admiro e com a qual me emociono.

Estes momentos com a cultura portuguesa podem-se comparar com os que tenho vivido com outras culturas e músicos, acho que é um bom exemplo do que tenho sentido com a música, a necessidade de me unir e aprender com outros.

Escreveu-me o grande escritor José Saramago no prólogo que me fez ao trabalho “Etxea": "o primeiro desafio é cantar a língua do outro", pareceram-me palavras cheias de profundidade em tão pouco espaço...põem-se-me os cabelos em pé a cada vez que recordo o encontro com José Saramago e a sua mulher Pilar del Rio, em Lisboa...estou eternamente agradecido ao grande maestro da vida pelas suas palavras.

E assim têm sido todos estes anos cheios de momentos únicos, que valorizo muito. Viagens, concertos, projectos, colaborações etc.... Costumo dizer, na música tens que ganhar um a um a cada amigo, e é isso que faço.

Q: Este álbum “Galiza” ainda é pouco conhecido em Portugal, o que podemos esperar?

R: “Galiza” é um projeto diferente na minha carreira, mas que tem um sentido e que é fruto de uma necessidade sentida. A minha relação com a Galiza remonta de há anos, com uma infinidade de concertos e colaborações. Sempre gostei das suas melodias e ver e sentir a cultura dos galegos. Por isso decidi fazer esta homenagem à Galiza. Convidei vários amigos e estou muito satisfeito com o resultado.

É um trabalho cheio de força, de ritmo, de sentimentos ancestrais que aparecem misturados com os sons da cultura basca como a txalaparta, a trikitixa, a pandeireta, os irrintzis…Tem sido um prazer e tenho-me comportado e sentido cada vez mais um galego.

Q: Tocar em Lisboa no FIMI, na principal praça da cidade, tem para o Kepa algum significado especial?

R: Claro! Para mim tocar em Portugal é um luxo e uma honra enorme. Como dizia, a minha relação com a cultura portuguesa remonta de há anos e minha admiração tem vindo a crescer ano após ano.

Encantam-me as suas vozes, os sons da guitarra portuguesa, as concertinas, os bandolins, os cavaquinhos....é uma cultura excepcional que desfruto na cada momento.

Tocar no coração de Lisboa é algo que vou recordar toda minha vida e de que me vou sentir muito orgulhoso...contá-lo-ei aos meus netos (risos).

Mas para mim o importante é tocar, conhecer o público, a praça, o teatro, etc....não é tão importante que seja grande ou pequeno...O importante é que te chamem, que cantem, e é poder tocar, mostrar o que se tem feito durante a viagem da vida...e que todas essas emoções acumuladas sirvam para que este seja um concerto especial e diferente...deixo já o meu agradecimento aos organizadores, pelo convite.

Q: Acha que a cultura e a música nos ajudam a estreitar as relações entre países e regiões?

R: Sem dúvida, é no que acredito desde sempre. Estou convencido que estamos mais juntos que separados e que o respeito e a emoção pelo outro é superior a qualquer diferença.

No meu caso, sempre me senti parte dos lugares onde toco, próximo dos músicos com os quais colaboro...E sempre com muitíssimo respeito, mas sentindo o privilégio que é conhecer a essência e o espírito da cada cultura.

Vídeo promocional do disco "GALIZA"

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