Entrevista ao Presidente do Instituto de Turismo de Portugal,
Dr. Orlando Carrasco

Por André Lopes

Q: Tem a cultura uma posição importante na procura turística internacional?

R: Na procura turística internacional a cultura ocupa, sem dúvida, um lugar cimeiro. A motivação para a viagem de lazer reside na curiosidade, na procura de ver e de conhecer o que é diferente de nós. E o que é diferente de nós traduz-se na concepção e interpretação da arte, visível nos monumentos, civis ou religiosos, na escultura, na pintura, na música. Há também os aspectos da cultura menos tangíveis, que determinam a identidade de cada povo ou de cada nação e se revelam nas tradições, modos de viver, concepções religiosas e outros aspectos sociais que fazem parte dessa necessidade de nos enriquecermos por via do contacto com outras culturas. A ligação do Turismo à Cultura é reconhecida pela Organização Mundial do Turismo que no Código de Ética, aprovado em 1999, refere no Artº 4º que “As políticas e actividades turísticas devem ser desenvolvidas no respeito pelo património artístico, arqueológico e cultural, competindo-lhe a sua preservação e transmissão às gerações futuras”.

Q: Considera que a cultura em Portugal tem tido o conveniente aproveitamento turístico? O que falta?

R: Portugal tem uma cultura riquíssima e de uma complexidade muito interessante, que provém da filtragem ao longo dos seus 900 anos de História, da influência romana e árabe, a que se juntaram, a partir do século dos Descobrimentos, múltiplas influências que resultaram do nosso encontro com culturas distantes. Tivemos o mérito de abrir à modernidade o mundo até então medieval e fechado. Não obstante, e excluindo casos excepcionais, nunca valorizámos a nossa riqueza cultural, a nossa original interpretação das grandes correntes artísticas europeias. E isto é válido tanto para o Turismo, como para os bens que produzimos. Faltou-nos orgulho de sermos portugueses. Esta atitude está, felizmente, a mudar e começamos a perceber – também porque o estrangeiro a valoriza - que temos de promover a nossa cultura. E existem já, em várias vertentes culturais e no visível esforço de recuperação do nosso património histórico, sinais muito positivos desta nova atitude.

Q: Quais os principais produtos a desenvolver na oferta turística cultural, do nosso país?

R: Podem-se estruturar e desenvolver, por exemplo, rotas culturais que, inclusivamente, podiam ser vendidas por operadores especializados. Existe, no Alentejo, a Rota do Fresco, operada por uma empresa particular, com o apoio de várias Câmaras Municipais, cujo programa inclui a gastronomia do Alentejo, e que pode servir como um dos modelos possíveis de construção de uma rota temática. Os festivais gastronómicos e culturais de qualidade, quando devidamente promovidos e atempadamente agendados, são seguramente grandes impulsionadores da procura e, na verdade, nos últimos anos várias autarquias têm dinamizado com sucesso este tipo de manifestações. Por outro lado, os serviços prestados nos nossos núcleos patrimoniais têm de ser francamente melhorados com vista à satisfação dos turistas que os visitam. Desde a sinalética – um combate que dura há vários anos - à presença de material informativo em português e, pelo menos, espanhol, inglês e francês, à sinalização de percursos que orientem o visitante no monumento ou no local arqueológico.

Q: Tendo em conta que quando falamos em turismo cultural, estamos muitas vezes a falar de produtos de nicho, quais os canais de distribuição mais adequados?

R: A Internet é, hoje em dia, um dos canais adequados à distribuição do produto cultural e existem programas a nível da União Europeia que estão a trabalhar numa grande base de dados e de metadados dos recursos culturais dos diversos países, no sentido de abrir “janelas” para vários perfis de utilizadores: turistas, operadores especializados, universidades, especialistas, etc.

Existem também os operadores turísticos especializados na temática cultural. Para que possamos aliciá-los a adquirir o nosso “produto”, há que trabalhá-lo conveniente e convincentemente e saber vendê-lo.

Q: Como é que perspectiva um Grande Evento da cultura portuguesa, à semelhança do que existe em Espanha (exemplo da Festa de San Fermin)?

R: Porque, como disse atrás, durante anos não valorizámos suficientemente a nossa cultura, não construímos nenhum evento cultural com projecção a uma escala internacional. A Europália, em 1994 e a Expo 98 tiveram um impacto enorme na mudança de percepção que os estrangeiros tinham da cultura portuguesa. Mas, pela sua natureza, esgotaram-se no tempo. Seria excelente que Portugal pensasse em organizar um grande evento anual ligado à cultura nacional, com grande impacto mediático. Um festival das grandes Descobertas, por exemplo, teria matéria bastante para poder realizar-se todos os anos.

Q: Como é que perspectiva um Grande Evento da cultura portuguesa, à semelhança do que existe em Espanha (exemplo da Festa de San Fermin)?

R: Não só a cultura é uma vertente importante e mesmo fundamental para a evolução qualitativa do nosso turismo, como o turismo pode revivificar muito do nosso património que, de outro modo, sobreviveria com dificuldade. É absolutamente essencial que Turismo e Cultura percebam que Portugal só tem a ganhar se trabalhem em estreita colaboração.
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