Entrvista a Pinharanda Gomes, Filosófo
Por André Lopes

Q: Durante o ciclo Pascal a espiritualidade manifesta-se em encenações e representações partilhadas, de devoção e fé, que em muito contribuem para o júbilo e coesão comunitária. Considera que nas gerações vindouras essa espiritualidade continuará a reflectir-se numa aproximação ou cada vez mais tenderá para um afastamento introspectivo, individual ?

R: Autos, encenações, procissões e outros modelos de representação figurada, constituem-se enquanto partilha de valores. No caso português são ainda sensíveis os ciclos de Inverno (como o Natal) de Primavera (como a Páscoa e o Pentecostes) e o de Verão (onde se situam as Joaninas e as demais do santoral com culto no tempo comum). Todo este património, que envolve temas, coreografias, guarda-roupa, actores e textos (literário e musical) tem sido conservado graças á radicação popular da piedade eclesial radicação essa, ainda viva e operante no mundo da ruralidade. Tirante as grandes celebrações urbanas (Braga, com a Semana Santa, por exemplo) a maior cota de expressões da religiosidade popular tem por cenário o mundo rural, as aldeias e as vilas. Fenómenos como a emigração e a mobilidade social têm contribuindo para o esquecimento de muitas expressões festivas, por falta de gente e, sobretudo, de pessoas cooperantes. É certo, ainda, que a pastoral da Igreja nem sempre tem apoiado as manifestações da religiosidade popular. Houve, e creio ainda haver, uma espécie de pastoral proibitiva, vejam-se os casos dos arraiais profanos no ambiente da festa religiosa, e das folias do Espírito Santo, por exemplo.

Quanto ao futuro, não vislumbro o que possa acontecer, mas há uma regra que tem de se considerar: a religiosidade popular só tem sentido quando comunitária-paroquial, regional, seja o que for, e o caminho do individualismo fere de morte a fé comum e também a fé do individualismo, uma vez que toda a fé precisa de se partilhar.

Q: Fruto do processo da globalização quase que podemos considerar que assistimos a um sincretismo religioso. Segundo a sua perspectiva quais os incentivos e/ou atitudes a adoptar para evitar, a extinção da tradição do teatro religioso popular?

R: A religiosidade solicita a crença religiosa e um mínimo de formação na ordem dos valores e dos cultos litúrgicos. A manutenção do teatro religioso popular passa muito, ou todo, pela dinâmica das paróquias, dos grupos de jovens, das colectividades de cultura e recreio. Fundamento essencial é a espontaneidade que mantém a herança e a prolonga no tempo, de forma genuína e voluntária, não necessariamente ligada a interesses mercantis. Quer dizer: a salvaguarda do teatro popular não se fará como deve ser num quadro empresarial. O popular faz-se com o povo e para o povo.

Q: Como insere o termo Paidéia no panorama actual da educação numa abordagem ao papel e função da tradição, e neste caso concreto, das práticas de religiosidade popular, na construção/formação cultural do indivíduo ?

R: Quanto ao lugar da Páideia na educação e na transmissão da tradição, o Papa Paulo VI reabriu as portas da piedade popular na Encíclica Evangeli Nuntiandi.

O que o Papa ensinou basta para esta questão: “ Se a religiosidade for bem orientada, sobretudo mediante uma pedagogia de evangelização, ela é algo rica de valores (…) e suscita atitudes interiores” das quais Paulo VI menciona a paciência, o sentido santificante da vida, o desapego, a aceitação do outro e uma genuína devoção. O profano será absorvido, isto é, evangelizado, pelo religioso. Deste modo a piedade popular pede, não a proibição, mas a evangelização.
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